Mudanças climáticas elevam o nível do mar e ameaçam praias e baixadas do Rio

RIO – Maior cidade costeira do Brasil, o Rio de Janeiro está especialmente vulnerável às consequências das mudanças climáticas previstas para este século. Com os novos cenários do aquecimento global produzidos pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla inglês) prevendo uma elevação do nível médio do mar em até 1,5 metro até 2099, mais de 10% da área do município do Rio estão em risco, principalmente a orla e o entorno do complexo de lagoas de Jacarepaguá, justamente a região que deverá receber grande parte da infraestrutura das Olimpíadas de 2016. Enquanto isso, a cidade vai enfrentar um maior número de dias e noites quentes no ano, que também terão calor mais intenso, além de chuvas mais frequentes e fortes que colocarão ainda mais pressão sobre os sistemas de drenagem.

Os alertas vêm de relatório sobre as vulnerabilidades da Região Metropolitana do Rio de Janeiro às mudanças climáticas, parte do projeto “Megacidades, vulnerabilidades e mudanças climáticas”, coordenado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e pelo Núcleo de Estudos de População da Unicamp e que será apresentado nesta quinta-feira no Fórum Carioca de Mudança Climática, no Palácio da Cidade. Durante seis meses, especialistas cruzaram dados locais, entre eles a topografia, a ocupação, a quantidade de chuvas e as áreas verdes, com cenários agravados pela ação dos gases do efeito estufa, em trabalho patrocinado pela Embaixada do Reino Unido que ainda pode ser levado às principais cidades brasileiras. São Paulo já teve estudo semelhante, publicado em junho de 2010.

— A elevação do nível do mar é uma consequência do aquecimento global que não se pode desprezar, ainda mais no Rio. Isso não quer dizer, no entanto, que a cidade vai se transformar numa Veneza — diz Paulo Gusmão, pesquisador do Laboratório de Gestão do Território (Laget) do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e coordenador do relatório. — Admitindo que esta elevação do nível do mar não vai se apresentar isolada, mas também associada a eventos climáticos extremos, o efeito sinérgico dessas alterações vai gerar situações que merecem cuidados maiores.

Praia do Arpoador pode desaparecer de vez
Gusmão destaca que o objetivo do documento é apresentar às autoridades propostas de ações necessárias para a criação de políticas públicas mais eficazes no enfrentamento das consequências das mudanças climáticas. Segundo ele, toda ocupação legal da região de Jacarepaguá já exige uma elevação do terreno para que fique a salvo de alagamentos, medida que deve ser reforçada para que os possíveis legados das Olimpíadas sejam preservados.

— Estamos trabalhando com um nível de risco mais elevado do que o que sempre lidamos, seja social, ambiental, geográfico ou ecológico — conta. — Nossos projetos e intervenções devem passar a levar em conta mais essas variáveis e serem adaptados a esses cenários de mudanças climáticas.

De acordo com o estudo, o aumento do nível do mar, somado ao maior número e intensidade de tempestades e mudanças no regime de ondas, trazem riscos para as praias em zonas urbanas, como nas regiões oceânicas de Rio, Niterói e adjacências, e as baixadas em volta de lagoas e baías — que, além de Jacarepaguá, incluem Sepetiba, a região sudoeste de Maricá, a porção sul de Seropédica e Itaguaí e áreas do Caju, Maré, Ilha do Fundão e Ilha do Governador. Na Zona Sul do Rio, por exemplo, o fenômeno de migração da areia do Arpoador para o Leblon pode se tornar persistente.

“Se nada for feito, as consequências da elevação do nível médio do mar, em sinergia com as ressacas e marés meteorológicas mais intensas (que tendem a reduzir ainda mais o estoque de areia), acarretarão em episódios de destruição de calçadas e avenidas de forma crescente, chegando a inviabilizar áreas residenciais em frente às praias”, alerta o relatório. Para os especialistas, no entanto, há tempo de planejar com segurança as adaptações que serão necessárias. Em casos como o do Arpoador, o estudo sugere a “engorda” artificial das praias com areia trazida de outros locais, enquanto em outros a solução mais prática seria retroceder as benfeitorias públicas ou respeitar uma distância maior em relação à linha de orla em desenvolvimentos. Já nas baixadas de lagoas e baías a saída seria remover a população e transformar as áreas desocupadas em parques que, além de opção de lazer, serviriam como “piscinões” naturais, acumulando a água que, de outra forma, poderia inundar áreas vizinhas.

— Ninguém deve ficar assustado. Teremos que fazer sistemas de drenagens, entre outras obras de adaptação, nos próximos 20 anos, o que envolve engenharia e custos — diz Sérgio Besserman Vianna, presidente da Câmara Técnica de Desenvolvimento Sustentável da prefeitura e coordenador adjunto do relatório.

A construção de diques, por exemplo, não faz parte de um futuro distante. A presidente do Instituto Estadual do Ambiente (Inea), Marilene Ramos, diz que obra do tipo na Baixada Fluminense deve ser concluída ainda em 2011.

— A Transbaixada, que inclui a construção de dique ao longo das margens do Rio Sarapuí com uma estrada no topo, já considera a elevação de meio metro do mar — conta.

O relatório aponta a construção da Companhia Siderúrgica do Atlântico (CSA), em Santa Cruz, como um exemplo de falta de planejamento relacionado às mudanças climáticas. A alta do nível do mar deverá mudar a geografia local. O secretário estadual do Ambiente, Carlos Minc, concorda com a conclusão do trabalho. E promete criar dispositivos para que as licenças ambientais passem a levar isso em consideração em um decreto a ser publicado em junho:

— Já que sabemos que o nível do mar vai subir, vou introduzir novos critérios nas regras do licenciamento ambiental. Ou seja, não vamos licenciar um grande prédio numa área em que a lagoa ou o mar vai ocupar daqui a 20 anos. Esta será nossa diretriz.

Mas se o avanço do mar poderá ser enfrentado com engenharia e obras, o mesmo não acontece com o calor na cidade. Neste caso, a população vai ter que se acostumar a dias mais quentes. Segundo o relatório, o número de dias no ano com temperatura mínima superior a 20C passará dos atuais 166,9 para 237,6 entre 2011 e 2040, até chegar a 311,6 dias entre 2071 e 2099. Já a média das temperaturas máximas avançará dos 35,5C previstos para 2011-2040 para 38,6C entre 2071 e 2099.

Fonte: Extra – Globo

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