Desafio ao mercado mundial

A economia ecológica garante sustentabilidade ambiental, segurança alimentar e relações de trabalho mais justas

A economia verde ou ecológica, movimento que começa a ganhar corpo em meados dos anos 1990, surge como um denominador comum capaz de solucionar um dos principais desafios deste milênio: como conciliar crescimento econômico, preservação ambiental, erradicação da pobreza e da fome num mundo superpovoado. A projeção é de que, ainda na metade deste século, o mundo atinja 8,5 milhões de pessoas.

Da revolução verde dos anos 1970, passando pela melhoria genética de sementes, até o uso das tecnologias sociais, é possível observar que a segurança alimentar constitui uma preocupação mundial, principalmente nas regiões secas do mundo. Essas áreas “compreendem 40% do território global, 30% da população e mais da metade da pobreza do mundo”, pontua o economista e professor, Antônio Rocha Magalhães, reclamando que esses territórios merecem atenção especial, citando o exemplo do semiárido brasileiro e dos países pobres da África.

O desafio se torna ainda maior quando projeções mais ousados apontam para a possibilidade da transformação da economia global em verde, como forma de promover o desenvolvimento sustentável. “Sim, essa transformação é possível”, responde o economista Maurício Poblete, completando que a mudança demanda tempo e dinheiro, além, é claro, de vontade política. “Se essa transformação não ocorrer, estaremos fadados a inúmeros problemas ambientais que afetarão toda a humanidade”, projeta.

Mas, não é tarefa fácil, uma vez que existem elementos de diversas ordens envolvidos, sendo a questão monetária uma das principais. É o caso da Organização Mundial do Comércio (OMC), que tem o papel de regular o mercado transacional.

Na opinião do especialista, “o principal problema que pode afetar a transição da economia marrom para a economia verde são as medidas protecionistas aplicadas pelas nações com o objetivo de proteger o mercado interno”. O custo com a economia verde representa um dos entraves, fazendo com que o economista pondere “uma discussão se deve ao fato de que medidas econômicas com o intuito de substituição de energias fósseis por energias renováveis demanda grandes custos”.

Pagar sozinho

Isso significa que os países desenvolvidos já exploraram suas reservas e florestas. E as que restaram se encontram nos países em desenvolvimento que não querem pagar a conta sozinhos. “Tudo se resume a quem vai pagar a conta da mudança”.

O professor Rocha Magalhães aponta três desafios para a consolidação da economia verde, tanto no âmbito global quanto no Brasil. Primeiro, a transição exige reformas e mudanças no modo de produção atual, incluindo novos investimentos. E, claro, os setores que lucram com a atual produção resistem às mudanças. Em segundo lugar, as tecnologias atuais precisam mudar para outras mais limpas, não poluentes.

O último ponto diz respeito à necessidade de que sejam feitas mudanças significativa nas instituições a fim de garantir essa transição. “As políticas de sustentabilidade devem se tornar mais centrais, e não secundárias como ainda são consideradas atualmente”, defende o pesquisador, para quem as tecnologias sociais são partes da solução, desde que sejam sustentáveis nos aspectos ambiental, social e econômico.

Semiárido

Rocha Magalhães considera que a saída tanto para o semiárido nordestino, quanto em outros semiáridos, é caminhar para a economia verde. Ou seja, “para um cenário em que todas as intervenções humanas sejam, no mínimo, neutras em relação aos impactos ambientais adversos como a emissão de gases de efeito estufa, poluição do ar, água e solo. Nesse sentido, sugere que as estratégias de desenvolvimento da agricultura irrigada, de sequeiro, da produção de energia, do uso do solo urbano e de todos os tipos de intervenção humana que impactam sobre a base dos recursos naturais sejam repensadas.

Quanto ao custo, explica que deve ser analisado individualmente. “Há áreas em que a economia verde pode representar um ganho; e outras, por sua vez, em que os ganhos serão menores”. De qualquer maneira, quando comparado com o Produto Interno Bruto (PIB), como fez o Comitê Brasileiro do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), os investimentos adicionais não parecem “astronômicos”.

A segurança alimentar é outro ponto a ser considerado, sobretudo, no contexto das mudanças climáticas. Daí a importância de implementação de políticas agrícolas em consonância com a economia verde. O Brasil não vem fazendo o dever de casa quando o assunto é política agrícola e sustentabilidade econômica. “As políticas não são suficientes”, critica.

Como ainda é insuficiente também o consumo de produtos verdes restrito às classes mais abastardas, devido aos altos preços, lamenta Josael Lima, economista-ecologista- e presidente do Instituto Ambiental Viramundo. Considera essencial no processo, a transformação das populações das comunidades marginalizadas em “sujeitos” nos projetos locais de produção sustentável.

Crise europeia

A crise pela qual passa a União Europeia (UE), pondo em xeque sólidas economias, pode ser considerada um sinal de que essa nova ordem econômica mundial precisa ser repensada, entrando em cena os chamados países emergentes, entre os quais despontam Brasil, Índia e China (Brics). Nesse contexto, o Brasil pode ser considerado um exemplo no investimento em energias renováveis.

Exceto alguns problemas políticos, a China vem trocando sua matriz energética do carvão para fontes renováveis, mas todos estão longe de ser um exemplo no aspecto da inclusão social. “Não podemos esquecer que a sustentabilidade tem três pilares: o ambiental, o econômico e o social”.

Fique por dentro
Rio + 20: Decisão

A Rio+20, reunião que acontece em maio do próximo ano, no Rio de Janeiro, 20 anos após a realização da Eco-92, está sendo aguardada com muita expectativa. Além de reunir dirigentes de nações do mundo todo, o evento pretende sair da discussão e partir para a ação. Ou seja, criar um pacto para a viabilização da economia verde como forma de pensar o desenvolvimento do Planeta de forma sustentável. Hoje, há compreensão de que o aquecimento global é um fato, daí o cenário da Rio20 ser diferente da Eco-92. Até lá, estão sendo realizadas reuniões preparatórias, a exemplo de Icid18, realizada em agosto do ano passado, em Fortaleza. A reunião trouxe à tona a discussão em torno das regiões discussão em torno das regiões secas do mundo.

IRACEMA SALES
REPÓRTER

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