Bolívia tem a riqueza do lítio no deserto de sal Salar do Uyuni

Nossos repórteres chegam a um lugar estranho, muito bonito e não longe do Brasil. Uma paisagem que mais parece de outro planeta e que esconde um tesouro, um metal super leve que pode ajudar na luta contra o aquecimento global

Um lugar como nenhum outro na face desta Terra. A maior planície de sal do mundo. Tão branca que o reflexo do sol confunde seus sentidos. O chão é um espelho, que reflete e que deforma. Tão imensa, que aguça o sentido de solidão. Onde caminha-se por linhas tortas – as referências se perdem e o ar rarefeito aos 3,7 mil metros de altitude aumenta a sensação de que pisamos em um mundo à parte.

Mas estamos perto de casa: na Bolívia, no Salar do Uyuni, um deserto de sal que tem duas vezes o tamanho do Distrito Federal, onde fica Brasília.

O Salar é uma lembrança de que o planeta muda. Há apenas 40 mil anos, era um mar interno, que evaporou, deixando seu sal depositado no fundo. Em alguns pontos a água brota do chão, borbulhando.

O Salar está bem no meio de uma região vulcânica, cercado de vulcões. E junto com a água, afloram gases vulcânicos. O incrível é ver que a água que aflora borbulhando está gelada.

Abaixo da superfície tem 100 metros de sal. Andando de carro como quem navega neste mar morto, a nossa equipe avista uma ilha. Incahuasi, a casa dos incas, é como um oásis no deserto de sal. Habitado por uma espécie que existe apenas no local: o cactus gigante do Uyuni.

Esses cactus crescem um centímetro por ano.Um deles, registrado pelo nossos repórteres, tem 9 metros de altura e 900 anos, um dos seres vivos mais velhos do planeta.

A repórter Sonia Bridi caminhou no que já foi o fundo do mar. Uma caverna forrada de fósseis de corais é a prova. É um ambiente que sobreviveu a muitas mudanças naturais, tem um papel importante nestes tempos de combate ao aquecimento.

Uma característica dos desertos de sal é que muitos deles tem lítio, um minério usado para fabricar desde remédios contra a depressão, até as baterias leves e duráveis da nova geração de telefones celulares. O lítio é também o principal componente das baterias dos carros elétricos que devem substituir boa parte da frota do planeta porque são limpos, não emitem os gases que provocam o efeito estufa.

Para isso, vão ser necessárias grandes quantidades de lítio. E é aí que o combate ao aquecimento e o Salar do Uyuni se encontram. Debaixo das rochas de sal está metade do lítio do planeta. Estaria no local o petróleo do século 20?

O mundo tem um bilhão de automóveis tocados a gasolina e óleo diesel. Cem milhões de carros novos são vendidos todos os anos. E 18% das emissões mundiais de gases que provocam o efeito estufa vem dos carros e até 2030 esse número vai passar dos 30%. A transformação da frota para carro elétrico depende do lítio – e da Bolívia.

“Neste momento, a tecnologia principal de escolha para bateria é o lítio”, explica Roberto Schaeffer, da Coppe UFRJ.

A razão? Uma bateria convencional pesa dez vezes mais do que uma de lítio. Cem quilos contra uma tonelada.

“Um carro convencional hoje, se ele rodasse com baterias convencionais de chumbo e fosse um carro elétrico, ele teria quase o mesmo peso dele só em bateria. Ou seja, você duplicaria o peso do carro ou teria dois carros andando – um que seria só bateria, e o outro carro tal como a gente conhece hoje”, ressalta Schaeffer.

A Agência Internacional de Energia prevê que em 40 anos, um de cada dois carros novos vai ser elétrico ou híbrido, com bateria. O que faz do lítio o petróleo limpo e o Salar, uma Arábia Saudita branca, com reservas que valem quase US$ 2 trilhões – quarenta vezes a soma das riquezas produzidas pela Bolívia em um ano.

Ainda não há em Uyuni sinal desta prosperidade. A vila pobre ainda vai ver muitos dias se acabarem antes de o lítio ser explorado de verdade.

Ao amanhecer no Salar, um bando de flamingos acompanha a rota dos nossos repórteres. Chegamos a uma piscina de pesquisa, pequena, para evaporar a água da salmoura cheia de lítio tirada do subsolo. Uma instalação acanhada para tanta promessa de riqueza.

A água que vem do subsolo não vem só com lítio, vem com outros componentes. Um deles é o enxofre, então o cheiro é muito ruim no local.

Nossos repórteres seguiram a 100km/h, mas com a sensação de estar parado. Uma hora até o outro lado do Salar. No local a obra é maior. Grandes piscinas de evaporação. Caminhões vão e vem, carregando a matéria-prima para construir tudo: o sal.

A salmoura vai sair de poços com água limpa e transparente, um espelho. O concentrado vai ser processado em uma usina piloto que o governo da Bolívia está construindo.

A obra vai devagar e é modesta. O governo nacionalista da Bolívia recusou parcerias com empresas estrangeiras que têm a tecnologia e ainda está tentando descobrir a maneira mais eficiente de separar da água o minério mais leve da terra.

Quando ficar pronta, em poucos meses, a usina vai processar 40 toneladas de lítio por mês. É só uma fração do que o mundo precisa e do que o mercado está disposto a comprar ainda hoje. É que a planta é experimental, serve para a Bolívia dominar a tecnologia do processamento do lítio para depois produzir em larga escala, sem depender de sócios estrangeiros. O país tem seus motivos: é riquíssimo em recursos minerais e durante cinco séculos viu esses minérios saindo do país enquanto a Bolívia continua sendo um dos países mais pobres do continente.

Enquanto é impossível ver lítio puro, a população vive da exploração do sal. Uma técnica primitiva: raspar o chão, preparar os montes para deixar secando, carregar tudo só com a força do trabalho.

As empacotadoras são rudimentares. As meninas, tímidas, fecham, no instinto, pacotes de um quilo. Dez horas, para ganhar o equivalente a R$ 5 no fim do dia. O dono diz que dá para levar a vida, mas ninguém aqui vive realmente bem.

Por enquanto, o impacto econômico mais forte no Uyuni vem do turismo, que explora ao máximo o que tem: o sal como material de construção. Hotéis inteiros são feitos de sal.Mas a distância e a altitude ainda dificultam a chegada de turistas.

Como todos no Uyuni, o trabalhador do sal sonha com o lítio. “Pensamos que o lítio vai desenvolver essa região e temos esperança de que vai trazer trabalho para nos e nossos filhos”.

Será agora ou a demora em começar a explorar o lítio pode fazer o país perder mais esta oportunidade? Para o analista Sérgio Abranches, existe o risco de novas tecnologias tornarem o lítio menos importante em pouco tempo.

“Essa corrida está se acelerando e novas alternativas vão surgir em uma década e meia, duas. A Bolívia precisaria disso não só por causa da riqueza que é o lítio, mas porque ela vai precisar de recursos, porque ela vai perder água com o degelo. Então, o país vai precisar ter os recursos para enfrentar a briga tecnológica para abastecer um país que está perdendo a sua água”, garante o analista.

Mais adiante, na série “Terra – Que tempo é este?”, vamos mostrar que o aquecimento global está provocando o derretimento dos Andes tropicais, botando em risco o abastecimento de água em vários países.

Fonte:PortalMS

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