Artigo elucida mecanismos naturais de controle do clima na Amazônia

Um estudo do LBA (o experimento LBA/Amaze – Amazonian Aerosol Characterization Experiment) publicado na revista Science em 17 de setembro, acaba de elucidar uma série de mecanismos de interação entre a floresta e o clima da região Amazônica, através da emissão de partículas de aerossóis. O estudo coordenado pelo Professor Paulo Artaxo, do Instituto de Física da USP, teve a participação de pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, Instituto Max Planck da Alemanha, e outras instituições estrangeiras. A Amazônia é uma das poucas regiões continentais onde as partículas de aerossóis e seus efeitos climáticos não são dominados por fontes antropogênicas. Durante a estação chuvosa, as condições atmosféricas da Amazônia lembram as condições limpas pré-industriais do ponto de vista das partículas de aerossóis. O estudo de casos onde a atmosfera ainda possui características limpas é importante para estabelecer a linha de base a partir da qual modelos climáticos podem traçar planos para o futuro. O estudo mostrou que a Amazônia é um forte reator biogeoquímico, no qual a biosfera e a atmosfera produzem núcleos para a formação de nuvens e sustentam o vigoroso ciclo hidrológico na Amazônia. O regime de interações aerossóis-nuvens-precipitação neste ambiente natural é muito distinto de regiões poluídas de nosso planeta. O estudo revelou mecanismos em que a floresta emite diretamente partículas que são chave na nucleação de nuvens. As propriedades físico-químicas destas partículas revelaram mecanismos de formação de aerossóis secundários na atmosfera da Amazônia que são muito particulares. Cerca de 85% da massa de aerossóis da fração fina das partículas (aerossóis menores que 2.5 micrometros) é constituída de partículas orgânicas, em forte contraste com áreas oceânicas e áreas continentais poluídas, dominadas por compostos inorgânicos tais como sulfatos e nitratos. O estudo mostrou que a composição das partículas de aerossóis na Amazônia é muito particular e reflete como eram as condições atmosféricas nos ecossistemas terrestres antes da era industrial. A Amazônia é uma das poucas regiões continentais (a outra é a Antártica) em que ainda é possível observar condições atmosféricas extremamente limpas durante a estação chuvosa, que foi quando o estudo foi realizado. O estudo mostrou também que as partículas submicrométricas que são a maior parte dos núcleos de condensação de nuvens são predominantemente compostas de material orgânico secundário formado na atmosfera pela oxidação de compostos biogênicos gasosos emitidos pela vegetação. Compostos voláteis gasosos emitidos para a atmosfera pelas plantas são oxidados por reações com ozônio e radicais hidroxila que mudam sua estrutura química adicionando átomos de oxigênio. Isso faz com que estes compostos sejam menos voláteis e condensam formando novas partículas ou se condensando em partículas pré-existentes. Estas partículas servem como núcleos nos quais vapor de água atmosférico condensa e nuvens são formadas. Estes mecanismos são fundamentais para o ciclo hidrológico da Amazônia e no balanço radiativo atmosférico. Por outro lado, as partículas maiores que 1 micrometro são emitidas diretamente pela vegetação, e constituem uma fração majoritária dos núcleos de condensação de gelo, que formam nuvens convectivas profundas e congeladas na Amazônia. Núcleos de gelo que são necessários para a formação de nuvens profundas na Amazônia foram observados como sendo originários majoritariamente de processos biológicos, emitidos pela vegetação como partículas primárias. O estudo mostra também que o numero e o tamanho de partículas de aerossóis é mais importante do que as propriedades higroscópicas das partículas. Isso tem implicações importantes nos mecanismos de produção de nuvens convectivas sobre a Amazônia, que determinam a precipitação na região. As implicações deste estudo indicam que as atividades humanas estão definitivamente alterando de modo intenso as propriedades atmosféricas em amplas áreas de nosso planeta, e os mecanismos de formação e desenvolvimento de nuvens estão sendo modificados pela ação do homem. Os fenômenos observados, mecanismos e realimentações podem ser relevantes na evolução dos ecossistemas e no clima em escala global ao longo da estória de nosso planeta. A alta atividade biológica controlando processos atmosféricos da região Amazônica mostra que os seres vivos de nosso planeta de certo modo moldam o meio ambiente de acordo com suas necessidades. Mas, quando a poluição industrial domina, estes mecanismos são suprimidos. Para entender o futuro do clima de nosso planeta, precisamos compreender como o clima era formado antes do advento da revolução industrial e a contaminação atmosférica que ocorreu nos últimos séculos. Este trabalho adiciona mecanismos científicos mais sólidos para entender o papel da floresta amazônica no clima global, e como as alterações no uso do solo em curso na Amazônia podem influenciar o clima da região e do planeta como um todo. O estudo teve apoio financeiro da FAPESP, CNPq, MCT, Programa LBA/INPA, NSF dos Estados Unidos e Instituto Max Planck, entre outras agências de fomento.

Fonte: EcoAgência

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